Em entrevista concedida em 1999 a Sérgio Buarque de Gusmão, diretor do Instituto Gutemberg, Aloysio Biondi explica como e por que a imprensa brasileira deixou de fazer jornalismo quando se tratava de noticiar os fatos da economia nacional durante os oito anos de Fernando Henrique Cardoso na presidência [1994-2002]. [clique no texto-link e acompanhe toda a entrevista no site de Aloysio Biondi]
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“Aloysio era um homem bom. Sua ação era a do bom senso, a de ouvir
pacientemente as razões de cada um, a de buscar sempre a palavra
conciliadora. Não a de conformidade, mas a mais próxima da razão.” Ziraldo |
Para Biondi, por interesses variados das
empresas e dos próprios jornalistas, “a imprensa fechou a favor do
governo do FHC”
Sérgio Buarque Gusmão: Numa entrevista que você deu à
revista Imprensa, em agosto de 1988, perguntaram o seguinte: "Você é,
há anos, uma voz discordante no jornalismo econômico. Isto não te
cansa?". Dez anos depois, somos obrigados – lamentando pela imprensa – a
repetir a pergunta: isso não te cansa?
Aloysio Biondi: Não, isto não me cansa. Acho que o
jornalismo só tem sentido se for realmente para cuidar corretamente da
informação, e não adianta vir com história de que tudo é relativo. A
definição de ética não compõe essa filosofagem. Ou você tem ética, ou
não tem. Eu até gostaria de falar o seguinte: na época da ditadura, eu
fui violentamente contra a política econômica do Delfim Netto. Eu não
era bem uma voz discordante, era uma pessoa que falava mais que as
outras.
E havia até os irônicos que achavam que eu era agente provocador.
Principalmente os partidos de esquerda moderada achavam que não se devia
cutucar os militares daquele jeito.
Na década de 80, eu fui uma voz discordante, mas só que ao contrário.
A esquerda caía em cima de mim porque, mais uma vez, não se trabalhava
com os dados. Você tinha todo um ajuste na economia brasileira, você
tinha investido maciçamente, você começou a ter saldo na balança
comercial, e a esquerda era realmente catastrofista, ela não olhava
esses dados. E cheguei a editor de Economia da Folha, e uma das coisas
mais horrorosas da minha vida foi que na época alguns economistas de
esquerda que eu admirava muito, que eu respeitava, com alguns até eu
tinha tido um relacionamento pessoal, escreveram que eu tinha sido
cooptado, e, eu colocava exatamente, que nos fins dos anos 60 para 70,
que até certo ponto a esquerda ficou esperando uma grande crise
econômica, e até certo ponto acabou motivando a juventude a ir para a
luta armada, à espera de uma crise econômica, que faria o povo apoiar a
luta armada. Um levante que não houve, porque estávamos numa fase de
expansão da economia mundial, e as multinacionais estavam investindo nos
países subdesenvolvidos, na época, e a esquerda tinha errado nesta
avaliação.
Depois da crise dos anos 80, da explosão da dívida, tem uma coisa,
assim, óbvia, a dívida do Brasil, do México e dos países
subdesenvolvidos – como se dizia na época – explodiu, porque o
presidente americano, Ronald Reagan, elevou a taxa de juros de 6 a até
18 e 21%, numa política para forçar a restruturação da economia
norte-americana, e isto estourou os países pobres.
A partir de julho de 1982, o Reagan, começou a reduzir as taxas, e em
outubro de 1983 tinham voltado aos níveis normais. Então com essa
história do voluntarismo, de você ter uma tese, e não ver os dados... É
engraçado porque todos os economistas de oposição, nas suas análises,
atribuíam a crise mundial, a crise dos endividados, à elevação das taxas
de juros do Reagan, e não admitiam que na medida que ele estava
reduzindo, que elas voltavam para o nível anterior, na faixa dos 6 a 8%,
a economia mundial, e a dos Estados Unidos, ia voltar a crescer. E eu
escrevi isso na Folha e provoquei uma indignação na esquerda. Diziam que
eu estava fazendo jogo contra a abertura. E eu estava fazendo
exatamente o contrário, uma análise política, não voluntarista, e o
tempo me deu razão logo em seguida.
Resumindo, eu não me cansei, eu, às vezes sou voz discordante quando
todo mundo está prevendo catástrofe e eu não estou prevendo, mas é em
cima de dados da realidade, porque eu sou contra o voluntarismo, e
brinco sempre que "trabalhar dá trabalho". Jornalista econômico tem que
acompanhar a conjuntura. Nas décadas de 1970 e 80, havia um desprezo,
inclusive de jornalistas muito importantes, economistas muito
importantes, pelo o que eles chamavam de "conjuntura arisca", porque
eles já sabiam que o capitalismo ia acabar, e o negócio era ir para o
boteco da roda e dizer que o capitalismo tinha acabado. Então para que
você vai acompanhar o dia-a-dia? Acho que o equívoco do jornalismo de
economia nessa fase decorreu de voluntarismo e preguiça de acompanhar os
dados e os fatos.