Show

https://youtu.be/NV6NIJH-chE

20160227

Vivemos uma fraude na imprensa? Aloysio Biondi Entrevistado por Sérgio Buarque Gusmão

Instituto Gutemberg, 1999

Em entrevista concedida em 1999 a Sérgio Buarque de Gusmão, diretor do Instituto Gutemberg, Aloysio Biondi explica como e por que a imprensa brasileira deixou de fazer jornalismo quando se tratava de noticiar os fatos da economia nacional durante os oito anos de Fernando Henrique Cardoso na presidência [1994-2002]. [clique no texto-link e acompanhe toda a entrevista no site de Aloysio Biondi]

Foto de Aloysio Biondi
“Aloysio era um homem bom. Sua ação era a do bom senso, a de ouvir pacientemente as razões de cada um, a de buscar sempre a palavra conciliadora. Não a de conformidade, mas a mais próxima da razão.”
Ziraldo
Para Biondi, por interesses variados das empresas e dos próprios jornalistas, “a imprensa fechou a favor do governo do FHC”
Sérgio Buarque Gusmão: Numa entrevista que você deu à revista Imprensa, em agosto de 1988, perguntaram o seguinte: "Você é, há anos, uma voz discordante no jornalismo econômico. Isto não te cansa?". Dez anos depois, somos obrigados – lamentando pela imprensa – a repetir a pergunta: isso não te cansa?
Aloysio Biondi: Não, isto não me cansa. Acho que o jornalismo só tem sentido se for realmente para cuidar corretamente da informação, e não adianta vir com história de que tudo é relativo. A definição de ética não compõe essa filosofagem. Ou você tem ética, ou não tem. Eu até gostaria de falar o seguinte: na época da ditadura, eu fui violentamente contra a política econômica do Delfim Netto. Eu não era bem uma voz discordante, era uma pessoa que falava mais que as outras.
E havia até os irônicos que achavam que eu era agente provocador. Principalmente os partidos de esquerda moderada achavam que não se devia cutucar os militares daquele jeito.
Na década de 80, eu fui uma voz discordante, mas só que ao contrário. A esquerda caía em cima de mim porque, mais uma vez, não se trabalhava com os dados. Você tinha todo um ajuste na economia brasileira, você tinha investido maciçamente, você começou a ter saldo na balança comercial, e a esquerda era realmente catastrofista, ela não olhava esses dados. E cheguei a editor de Economia da Folha, e uma das coisas mais horrorosas da minha vida foi que na época alguns economistas de esquerda que eu admirava muito, que eu respeitava, com alguns até eu tinha tido um relacionamento pessoal, escreveram que eu tinha sido cooptado, e, eu colocava exatamente, que nos fins dos anos 60 para 70, que até certo ponto a esquerda ficou esperando uma grande crise econômica, e até certo ponto acabou motivando a juventude a ir para a luta armada, à espera de uma crise econômica, que faria o povo apoiar a luta armada. Um levante que não houve, porque estávamos numa fase de expansão da economia mundial, e as multinacionais estavam investindo nos países subdesenvolvidos, na época, e a esquerda tinha errado nesta avaliação.
Depois da crise dos anos 80, da explosão da dívida, tem uma coisa, assim, óbvia, a dívida do Brasil, do México e dos países subdesenvolvidos – como se dizia na época – explodiu, porque o presidente americano, Ronald Reagan, elevou a taxa de juros de 6 a até 18 e 21%, numa política para forçar a restruturação da economia norte-americana, e isto estourou os países pobres.
A partir de julho de 1982, o Reagan, começou a reduzir as taxas, e em outubro de 1983 tinham voltado aos níveis normais. Então com essa história do voluntarismo, de você ter uma tese, e não ver os dados... É engraçado porque todos os economistas de oposição, nas suas análises, atribuíam a crise mundial, a crise dos endividados, à elevação das taxas de juros do Reagan, e não admitiam que na medida que ele estava reduzindo, que elas voltavam para o nível anterior, na faixa dos 6 a 8%, a economia mundial, e a dos Estados Unidos, ia voltar a crescer. E eu escrevi isso na Folha e provoquei uma indignação na esquerda. Diziam que eu estava fazendo jogo contra a abertura. E eu estava fazendo exatamente o contrário, uma análise política, não voluntarista, e o tempo me deu razão logo em seguida.
Resumindo, eu não me cansei, eu, às vezes sou voz discordante quando todo mundo está prevendo catástrofe e eu não estou prevendo, mas é em cima de dados da realidade, porque eu sou contra o voluntarismo, e brinco sempre que "trabalhar dá trabalho". Jornalista econômico tem que acompanhar a conjuntura. Nas décadas de 1970 e 80, havia um desprezo, inclusive de jornalistas muito importantes, economistas muito importantes, pelo o que eles chamavam de "conjuntura arisca", porque eles já sabiam que o capitalismo ia acabar, e o negócio era ir para o boteco da roda e dizer que o capitalismo tinha acabado. Então para que você vai acompanhar o dia-a-dia? Acho que o equívoco do jornalismo de economia nessa fase decorreu de voluntarismo e preguiça de acompanhar os dados e os fatos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário