
Os próprios estágios do
miserabilismo em nosso cinema são internamente evolutivos. Assim, como observa
Gustavo Dahl, vai desde o fenomenológico (Porta das Caixas), ao social (Vidas
Secas), ao político (Deus e o Diabo), ao poético (Ganga Zumba),
ao demagógico (Cinco vezes Favela), ao experimental (Sol Sobre a Lama),
ao documental (Garrincha, Alegria do Povo), à comédia (Os Mendigos),
experiências em vários sentidos, frustradas umas, realizadas outras, mas todas
compondo, no final de três anos, um quadro histórico que, não por acaso, vai
caracterizar o período Jânio-Jango: o período das grandes crises de consciência
e de rebeldia, de agitação e revolução que culminou no Golpe de Abril. E foi a
partir de Abril que a tese do cinema digestivo ganhou peso no Brasil,
ameaçando, sistematicamente, o Cinema Novo.
Nós compreendemos esta fome que o europeu e o brasileiro na maioria não
entende. Para o europeu é um estranho surrealismo tropical. Para o brasileiro é
uma vergonha nacional. Ele não come, mas tem vergonha de dizer isto; e,
sobretudo, não sabe de onde vem esta fome. Sabemos nós – que fizemos estes
filmes feios e tristes, estes filmes gritados e desesperados onde nem sempre a
razão falou mais alto – que a fome não será curada pelos planejamentos de
gabinete e que os remendos do tecnicolor não escondem mas agravam seus tumores.
Assim, somente uma cultura da fome, minando suas próprias estruturas, pode
superar-se qualitativamente: a mais nobre manifestação cultural da fome é a
violência. A mendicância, tradição que se implantou com a redentora piedade
colonialista, tem sido uma das causadoras de mistificação política e de
ufanista mentira cultural: os relatórios oficiais da fome pedem dinheiro aos
países colonialistas com o fito de construir escolas sem criar professores, de
construir casas sem dar trabalho, de ensinar ofício sem ensinar o analfabeto. A
diplomacia pede, os economistas pedem, a política pede: o Cinema Novo, no campo
internacional, nada pediu: impôs-se a violência de suas imagens e sons em vinte
e dois festivais internacionais.
Pelo Cinema Novo: o comportamento exato de um faminto é a violência, e a
violência de um faminto não é primitivismo. Fabiano é primitivo? Antão é
primitivo? Corisco é primitivo? A mulher de Porto das Caixas é
primitiva?
Do Cinema Novo: uma estética da violência antes de ser primitiva e
revolucionária, eis aí o ponto inicial para que o colonizador compreenda a
existência do colonizado: somente conscientizando sua possibilidade única, a
violência, o colonizador pode compreender, pelo horror, a força da cultura
que ele explora. Enquanto não ergue as armas o colonizado é um escravo: foi
preciso um primeiro policial morto para o francês perceber um argelino.
De uma moral: essa violência, contudo, não está incorporada ao ódio, como
também não diríamos que está ligada ao velho humanismo colonizador.