Aos
que nunca viram nada de Glauber Rocha há que adverti-los duas coisas: por
uma parte, que ninguém pode aspirar a compreender o cinema brasileiro se
não viu duas ou três obras deste cineasta extraordinário, injustamente
etiquetado de “difícil”, “incompreensível”. E, por outro lado,
que talvez seja um dos últimos expoentes de uma maneira de filmar
personalíssima, irreverente, quiçá “difícil” - note a contradição
-, chama esta ainda encontrada em um Jean-Luc Godard ou um Raoul Ruiz.
“O problema do espectador na obra de arte é um problema que eu não
considero, digo-lhe isto com a maior sinceridade. Porque eu acredito que a
obra de arte é um produto da loucura, no sentido em que fala o Fernando
Pessoa, que fala o Erasmo, quer dizer, a loucura como a lucidez, a libertação
do inconsciente. É por isso que eu não me considero um cineasta
profissional, porque se fosse teria que atuar segundo o ritual da indústria
cinematográfica. Considero-me um amador, como o Buñuel, alguém que ama
o cinema”, declarou pouco antes de morrer, num dos seus arroubos verbais
de poderosa vitalidade.
De todos os cineastas
brasileiros surgidos no Cinema Novo - Nelson Pereira dos Santos, Joaquim
Pedro de Andrade, Leon Hirzman, Carlos Diegues, Roberto Santos -,
possivelmente o mais influente foi o baiano Glauber de Andrade Rocha
(1939-1981), especialmente depois da aparição do seu segundo
longa-metragem, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), filmado no
mesmo ano do Golpe Militar e considerado um dos dez melhores filmes de
todos os tempos pela revista francesa Cahiers du Cinema. Ele eclipsou a
todos com sua rutilante celebridade, poesia agreste e personalidade
contraditória, ganhando visibilidade internacional com sua aura
desordenada e trágica, e abrindo mais recentemente caminho a novos
realizadores do cinema brasileiro, como Walter Salles (“Abril Despedaçado”),
Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”) ou Karim Ainouz (“Madame Satã”).
Em poucos anos filma vários curtas - “Amazonas, Amazonas” (1965),
“Maranhão 66”(1966) -, publica livros, viaja por inúmeros países, e
realiza duas obras fundamentais, “Terra em Transe” (1967) -
classificado de “ópera metralhadora” por Jean-Louis Bory, do Le
Nouvel Observateur - e “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”
(de 1969, conhecida na Europa como “António das Mortes”),
apresentadas no Festival de Cannes, recebendo com a segunda o prêmio de
melhor diretor. Foi o seu auge, e parecia ter o mundo aos seus pés. Na década
seguinte, entretanto, sua estrela decaiu como consequência da emergência
e triunfo do cinema comercial.
A personalidade
particularmente dotada de Glauber para perceber o cinema - ou seja, o próprio
mundo -, em toda sua complexidade, se diluiu numa estética alarmante e
desconcertante. Radicalizou a idéia de narrar o caos, sustentando que só
o caótico sustenta a obra de arte, em um efeito artístico ambíguo que
reflete esse mesmo caos iluminado ao fim por uma poética misteriosa,
quase redentora. Exilado voluntariamente do Brasil, filma na África (“O
Leão de 7 Cabeças”, 1969), Espanha (“Cabezas Cortadas”, 1970),
Cuba (“História do Brasil”, 1972) e Itália (“Claro”, 1975). Ele
que havia bebido em fontes diversas (Eisenstein, Bergman, Fellini,
Visconti) para compor sua lógica, tentando decifrar o Brasil ao filmar o
seu avesso, mergulhava de cabeça numa utopia cinematográfica estranha e
marcada por contradições, ideológica, política, espiritual e mitológica.
“Criticar - teorizar - praticar um cinema revolucionário, histórico -
dialéctico e poético (o homem livre de seus fantasmas burgueses) é a única
saída”, escreveu em 1975.
Recusando
uma carreira internacional convencional, passa por graves dificuldades
financeiras, é ridicularizado no Brasil por seus próprios colegas,
escreve para o irreverente semanário “O Pasquim” - num idioma
particular com y e k no lugar de i e c - e para vários outros jornais,
provocando polêmicas e reações furiosas. Em 1979, no programa
“Abertura”, da TV Tupi, na época a mais popular do Brasil, faz
entrevistas com grande repercussão. Torna-se uma espécie de profeta, de
intelectual que perdeu a razão, e mesquinhamente contam-se casos reais
dele caminhando na praia de Ipanema, enrolado num cobertor como mendigo,
falando sozinho; conversando com as paredes do hotel, em Santiago do
Chile, com um microfone na mão: “Aqui é Glauber Rocha, eu sei que a
Cia está gravando, e a KGB também”; das brigas irreconciliáveis com
diversos amigos. Em 1979, num último esforço para sair das trevas, vende
seu único bem, uma casa, para filmar “A Idade da Terra” em Salvador,
Brasília e Rio de Janeiro, com um elenco de estrelas (Norma Bengell, Tarcísio
Meira, Antonio Pitanga, Danuza Leão). “Esse filme materializa os símbolos
mais representativos do Terceiro Mundo, ou seja: o imperialismo, as forças
negras, os índios massacrados, o catolicismo popular, o militarismo
revolucionário, o terrorismo urbano, a prostituição da alta burguesia,
a rebelião das mulheres, as prostitutas que se transformam em santas, das
santas em revolucionárias. Tudo isso está no filme dentro do grande cenário
da História do Brasil”, diz no seu lançamento. Quebrando com o cinema
teatral e ficcional, numa desintregação da sequência narrativa sem a
perda do discurso, o filme é um fracasso de público e é vaiado no
Festival de Veneza. Glauber, alucinado, magoado, faz passeata, ofende o júri,
ataca de reacionário ao vencedor, o francês Eric Rohmer, prometendo
nunca mais voltar ao seu país e sempre defendendo a sua obra: “Busco um
outro cinema. Um filme que o espectador deverá assistir como se estivesse
numa cama, numa festa, numa greve ou numa revolução. É um novo cinema,
antiliterário e metateatral, que será gozado, e não visto e ouvido”.
No final de 1980, o
maior cineasta brasileiro do século XX, se encontra em Roma,
hospedando-se com Luchino Visconti, e por fim, Paris, acompanhando uma
retrospectiva de seus filmes. Sua câmara havia revelado a essência de um
país, fugindo da beleza defunta tipo cartão-postal, e pousando na
loucura e no desespero, na crueza e nas mazelas sociais. Mesmo assim, aos
41 anos, tinha todas as portas fechadas e vivia numa terrível penúria
econômica. Havia visitado Portugal pela primeira vez em 1962. Tentando
colocar a cabeça em ordem, resolve viver em Sintra, “o lugar mais
bonito do mundo”, como dizia. Leva a esposa colombiana, Paula Gaitán,
fotógrafa e atriz, e os dois filhos de menos de dois anos de idade, Ava
Patria Yndia Yracema Gaitán Rocha e Erik Arouak. Se define como
sebastianista e apocalíptico, e é recebido de braços abertos por dois
cineastas, Manuel Carvalheiro e José Fonseca e Costa. É um homem
amargurado, decepcionado, com problemas políticos e saúde frágil. Se
sentia cansado, doente, visitara médicos em Paris, porém os mais íntimos
conheciam a antiga mania de doença do diretor, e nunca levaram a sério
sua hipocondria.
Em Sintra desde 1973,
num grande casarão acostumado a hospedar intelectuais e artistas de todo
o mundo, o engenheiro de som português Carlos Pinto (São Pedro do
Estoril, 1950) recebe um telefonema do cineasta brasileiro, pedindo o seu
apoio, “talvez pudesse ficar em sua casa por uns tempos”. “Venha
quando quiser”, responde Pinto. Profissional dos mais requisitados, com
currículo admirável, Carlos Pinto trabalhava basicamente no cinema francês,
filmando muito fora de casa, e ainda não conhecia pessoalmente o autor de
“Barravento” (1960). Na época da chegada de Glauber, em janeiro de
1981, filma em África, “Música em Moçambique”, de Fonseca e Costa.
Terminada as filmagens, encontra Glauber hospedado no Hotel Central,
ocupando todo o primeiro andar de um hotel praticamente vazio. Sua esposa,
Paula, de família burguesa, não admitia viver numa casa com estranhos, e
o casarão de Pinto, além do próprio, era bastante concorrido, habitado
por um psicólogo e uma suiça professora de línguas. Só que a família
Rocha não tinha condições financeiras para viver num hotel. A solução
foi procurar uma casa para alugar. E encontraram a antiga residência de
Ferreira de Castro, ao lado da casa de Pinto, e também um dos escritores
favoritos de Glauber, que lera boa parte de sua obra e havia feito um
documentário em 1974, desaparecido. “Aqui é bonito. Escrevo diante de
uma panavisão sobre o Atlântico camoniano e sebastianista do alto de uma
montanha antes habitada por Byron numa linda casa onde viveu Ferreira de
Castro. As coisas vão bem, estou feliz no meu feudo à beira mar plantado
vendo todos os dias naves partindo na construção do IV Império de
Sebastião Ressuscitado...”, anotou no seu diário em 26 de abril de
1981. Eles viveram nesta casa durante três meses, depois mudaram para a
Estalagem dos Lobos, perto de Montserrate, e terminaram na própria casa
de Carlos Pinto, então já um dos melhores amigos e principal confidente
de Glauber Rocha
Genial tratamento transcrito sobre o mestre do cinema internac
ional e o fundador e único representante do Cinema Novo. Concordo em tudo o que foi escrito!!!
ional e o fundador e único representante do Cinema Novo. Concordo em tudo o que foi escrito!!!
Link de: Linck para o site do Antonio Jr.
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